O benefício extra que o exercício físico lhe pode trazer

A nível global, estima-se que cerca de 4,4% da população mundial está deprimida. A depressão é uma doença com fatores causais múltiplos, sendo classificada pela OMS como aquela que mais incapacita as pessoas para o trabalho, além de ser também a entidade que mais contribui para as mortes por suicídio. Segundo o último Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental, a prevalência de perturbação depressiva em Portugal é cerca de 8%, o que se afigura elevado comparando com outros países europeus. Prevenir e tratar a depressão é, à luz da estatística, um problema de saúde pública.

 

1- Os estudos

Ao longo dos últimos 40 anos, várias revisões e meta-análises foram realizadas no tema exercício e depressão. Já em 1985, um estudo pioneiro reportou que a atividade aeróbica moderada era suficiente para produzir efeito antidepressivo 6 a 9 meses depois do diagnóstico de depressão. Os estudos são claros, uns metodologicamente mais correctos do que outros, acerca do benefício do exercício para tratamento da depressão major e da depressão com sintomas moderados. Em 2005, um estudo com 80 participantes com sintomas ligeiros a moderados de depressão veio a comprovar que qualquer exercício, mesmo que menos intenso e mais irregular, tem efeitos positivos na melhoria do quadro depressivo. Em algumas comparações diretas, chegou mesmo a igualar os benefícios da terapêutica cognitivo-comportamental e dos fármacos antidepressivos. Na verdade, parece haver uma relação direta entre exercício e menos recidivas ou recaídas dos sintomas depressivos, ao passo que quem apenas faz terapêutica medicamentosa ou cognitivo-comportamental pareceu ter maior risco de desenvolver de novo os sintomas. De acordo com as investigações, o exercício físico também tem um papel importante na melhoria do sono e dos estados de ansiedade, o que está presente em muitos quadros depressivos.

 

2- Como funciona

É óbvio que uma condição física deficitária leva a uma saúde precária, o que conduz a depressão e ansiedade pelos mais variados motivos. Mas esta teoria não parece ser a mais justificativa dos benefícios do exercício físico a nível de saúde mental. A melhoria da microcirculação com a alteração dos neurotransmissores e dos neurónios a nível do sistema nervoso central parece ser a grande causa deste efeito. Outros factores responsáveis são alguns efeitos colaterais da prática de atividade física, como a melhoria da auto-imagem, o suporte social do grupo de exercício e a distracção dos problemas do dia-a-dia durante as sessões.

Outra teoria implicada relaciona-se com a superação pessoal que é levar a cabo uma rotina de treino ao longo do tempo, o que é em si um factor de stress, ainda que mínimo e controlado. Desta forma, os indivíduos expostos a estas circunstâncias estão como que “vacinados” contra stressors imprevisíveis que podem conduzir a depressão e ansiedade. Tornam-se assim mais resilientes.

 

3- Mais exercício físico, mais felicidade?

Parece que não é só uma questão de resiliência, mas também de alegria! Ao que parece, e de acordo com uma revisão recente, pessoas que treinam nem que seja só uma vez por semana ou 10 minutos por dia são mais alegres do que aquelas que não se exercitam. 23 estudos foram analisados desde 1980, a maioria observacionais, alguns experimentais, sempre com grupos pequenos de participantes por estudo, mas atingindo 500 000 indivíduos na totalidade dos estudos. O tipo de exercício não pareceu contar para os resultados e parece haver uma relação direta entre a quantidade de exercício e o grau de felicidade. Interessante, não? Um dos estudos utilizou uma app para smartphone em que a pessoa era convidada a partilhar o seu estado de humor consoante o tipo de atividade que desenvolvia. De facto, as pessoas estão mais felizes depois de fazerem um treino ou alguma atividade física ligeira do que se estivessem sentadas ou deitadas.

 

4- Que tipo de exercício?

Parece que não é o tipo de exercício, nem propriamente a quantidade de exercício ou a sua intensidade os factores mais determinantes, mas sim a duração do programa de exercício, que se requer que seja de dois meses para haver um impacto no bem estar que se prolongue no tempo. Mesmo simples caminhadas, num estudo efectuado com 2000 idosos, demonstraram ser eficazes num período de 3 anos na melhoria dos sintomas.Também houve resultados positivos para a prática de yoga e de exercício de força na prevenção e controlo dos sintomas depressivos.

 

5- Exercício físico, a verdadeira polypill

Dados os variados benefícios do exercício físico, está-se mesmo a ver que não há melhor medida de saúde pública a implementar do que estimular a sua prática. Conhece algum medicamento que emagrece, controla a diabetes, controla a pressão arterial, ajuda na redução dos níveis de ácido úrico e de colesterol LDL, melhora a insuficiência venosa, reduz o risco de cancro, melhora a performance cognitiva e ainda tem efeitos comprovados em termos de saúde mental? Eu conheço, chama-se exercício físico. Mais barato do que os comprimidos para todos estes problemas, mais acessível porque pode fazer em casa…e ainda se pode divertir a fazê-lo!

 

Mais motivado agora? Convido-o a experimentar fazer uma actividade que gosta, seja caminhada, dança, corrida, ginásio ou ténis, e a partilhar connosco o seu estado de espírito depois. 

 

Retirado de:

  1.        Harvey SB, Øverland S, Hatch SL, Wessely S, Mykletun A, Hotopf M. Exercise and the Prevention of Depression: Results of the HUNT Cohort Study. Am J Psychiatry [Internet]. 2018 Jan 3 [cited 2018 Jun 3];175(1):28–36. Available from: http://ajp.psychiatryonline.org/doi/10.1176/appi.ajp.2017.16111223
  2.        Gordon BR, McDowell CP, Hallgren M, Meyer JD, Lyons M, Herring MP. Association of Efficacy of Resistance Exercise Training With Depressive Symptoms. JAMA Psychiatry [Internet]. 2018 May 9 [cited 2018 Jun 3]; Available from: http://archpsyc.jamanetwork.com/article.aspx?doi=10.1001/jamapsychiatry.2018.0572
  3.        Lathia N, Sandstrom GM, Mascolo C, Rentfrow PJ. Happier People Live More Active Lives: Using Smartphones to Link Happiness and Physical Activity. Krukowski RA, editor. PLoS One [Internet]. 2017 Jan 4 [cited 2018 Jun 3];12(1):e0160589. Available from: http://dx.plos.org/10.1371/journal.pone.0160589
  4.        Schuch FB, Deslandes AC, Stubbs B, Gosmann NP, Silva CTB da, Fleck MP de A. Neurobiological effects of exercise on major depressive disorder: A systematic review. Neurosci Biobehav Rev [Internet]. 2016 Feb [cited 2018 Jun 3];61:1–11. Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26657969
  5.        Schuch FB, Vancampfort D, Richards J, Rosenbaum S, Ward PB, Stubbs B. Exercise as a treatment for depression: A meta-analysis adjusting for publication bias. J Psychiatr Res [Internet]. 2016 Jun [cited 2018 Jun 3];77:42–51. Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26978184
  6.        Schuch FB, Vancampfort D, Sui X, Rosenbaum S, Firth J, Richards J, et al. Are lower levels of cardiorespiratory fitness associated with incident depression? A systematic review of prospective cohort studies. Prev Med (Baltim) [Internet]. 2016 Dec [cited 2018 Jun 3];93:159–65. Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27765659
  7.        Schuch FB, Vancampfort D, Firth J, Rosenbaum S, Ward PB, Silva ES, et al. Physical Activity and Incident Depression: A Meta-Analysis of Prospective Cohort Studies. Am J Psychiatry [Internet]. 2018 Apr 25 [cited 2018 Jun 3];appi.ajp.2018.1. Available from: http://ajp.psychiatryonline.org/doi/10.1176/appi.ajp.2018.17111194
  8.        Zhang Z, Chen W. A Systematic Review of the Relationship Between Physical Activity and Happiness. J Happiness Stud [Internet]. 2018 Mar 24 [cited 2018 Jun 3];1–18. Available from: http://link.springer.com/10.1007/s10902-018-9976-

Written by Dra. Catarina Santos

Médica de Medicina Geral e Familiar, praticante de fitness e bodybuilding, seu objetivo principal é a nutrição e as boas práticas de treino.

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