Quem aqui gosta de contar calorias?

Circula por aí que as calorias são pequenos monstros que vivem nos armários e reduzem o tamanho das roupas. Esta ideia de “monstrificar” as calorias advém de um esforço penoso em querer reduzi-las para perder peso e ser mais saudável. Mas terá mesmo de ser assim? Fazer boas escolhas alimentares, estar atento aos sinais de saciedade e de fome, fazer exercício físico regularmente, beber água, enfim, viver bem, não será suficiente?

Quem vive em dieta sabe do que estou a falar. São duas colheres de arroz e não três, são 100g de carne e não mais do que isso, são 30 g de aveia e nem mais um pouco. Senão, está tudo estragado: demasiados hidratos de carbono, a gordura já não cabe nos limites dos macronutrientes diários, e assim foi mais um dia para o lixo. Obsessivo? Talvez. E mais uma vez: terá mesmo de ser assim?

Longe de querer entrar em fundamentalismos e não menosprezando a importância de ter um plano nutricional adequado aos objetivos e aos problemas de saúde de cada um, partilho hoje convosco um artigo recente que ilustra esta dicotomia.

Este estudo, publicado no mês passado no JAMA (Journal of the American Medical Association), alerta para a importância de uma alimentação saudável e “intuitiva” versus um plano nutricional rigoroso. Percebeu-se que se perde peso eliminando os produtos processados e optando por alimentos na sua versão natural sem gastar calorias a pensar em calorias.

Os investigadores recrutaram adultos com excesso de peso e obesidade, não diabéticos, e dividiram-nos em dois grupos: um grupo com uma dieta saudável baixa em hidratos de carbono e um grupo com uma dieta saudável baixa em gorduras. Todos os indivíduos tiveram aulas com dietistas onde eram treinados a escolher alimentos minimamente processados, ricos nutricionalmente, acima de tudo preparados em casa. No grupo de dieta baixa em gordura, as pessoas foram encorajadas a optar por aveia, arroz integral, lentilhas, carnes magras, quinoa e fruta. O grupo low carb era aconselhado a optar por alimentos como azeite, salmão, abacate, legumes e carnes de animais alimentados a pasto em vez de pães low carb, barras de cereais low carb e outras opções de produtos industrializados para este tipo de dieta. O exercício físico não foi o enfoque principal do estudo, sendo que os participantes foram encorajados a seguir as indicações gerais para a prática de exercício e nada mais do que isso.

O resultado? Em média ambos os grupos perderam 5,4 e 5,9 kg em 12 meses, no grupo baixo em gordura e baixo em hidratos de carbono, respectivamente. Mais do que isso, a glicémia, a pressão arterial, o perímetro abdominal e a percentagem de gordura corporal também diminuíram.

Não é que as calorias não sejam importantes. Na verdade, em ambos os grupos houve a longo prazo uma redução média do consumo de calorias, voluntária e inconsciente. Escolher alimentos ricos em fibra, baixos em açúcares e preparados em casa, sem aditivos que incentivam ao consumo, levou a uma maior saciedade.

E era aqui que queria chegar: uma dieta demasiado restritiva não funciona a longo prazo. Se quer reduzir medidas e procura melhorar a sua saúde, coma. Mas coma bem, devagar, elimine as fontes de distracção quando come, beba água, faça exercício, respeite o seu apetite, ouça o seu corpo. Naturalmente, e face à oferta já desmedida de produtos diet, light, low carb e low fat industrializados, é necessária muita educação por parte dos profissionais de saúde acerca do que é realmente saudável. Aprender realmente a comer bem é muito mais valioso do que seguir uma cábula. E é aqui que nos debatemos todos os dias: educação em saúde à população.

 

Retirado de:

Gardner CD, Trepanowski JF, Del Gobbo LC, Hauser ME, Rigdon J, Ioannidis JPA, et al. Effect of Low-Fat vs Low-Carbohydrate Diet on 12-Month Weight Loss in Overweight Adults and the Association With Genotype Pattern or Insulin Secretion. JAMA [Internet]. 2018 Feb 20 [cited 2018 Mar 1];319(7):667. Available from: http://jama.jamanetwork.com/article.aspx?doi=10.1001/jama.2018.0245

Written by Dra. Catarina Santos

Médica de Medicina Geral e Familiar, praticante de fitness e bodybuilding, seu objetivo principal é a nutrição e as boas práticas de treino.

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